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Road To Madison – João Ferreira e Sara Pinto

Os dois campeões nacionais – João Ferreira e Sara Pinto – rumo a Madison (E.U.A.), prontos para nos representarem e à nossa bandeira nos Reebok CrossFit Games 2019.

Estive à conversa com estes dois atletas que, apesar de já os conhecer, me mostram o lado deles, a forma de encarar este percurso, o que sentiram durante todo o processo, até chegar a esta fase final. E eles responderam a tudo aquilo que vocês querem saber.

 

 

Sara Pinto: Antes de mais obrigado por esta oportunidade. É uma forma interessante das pessoas nos ficarem a conhecer e melhor, e terem uma pequena ideia de como são os dias de preparação para Madison.

 

Quando se inscreveram neste Open ambicionaram e prepararam-se para lutar por este lugar onde estão agora?

João Ferreira: Sim, claro! Quando me inscrevi no Open o objectivo foi sempre ser o Fittest In Portugal, e sabendo de antemão que este ano com a mudança das regras o campeão nacional passaria directamente para os CrossFit Games foi esse o meu objectivo desde o início. Como o ano passado fui aos Regionais e com as regras antigas o objectivo seria sempre focar-me no Open, este ano o objectivo teria de ser vencer em Portugal e ter a passagem directa, uma vez que é mais fácil para mim neste momento ir como campeão nacional do que vencendo uma das competições sancionadas pela CrossFit.

Sara Pinto: Acho que qualquer um ambiciona sempre o melhor. O meu primeiro pensamento era assegurar o lugar que conquistei o ano passado, e nem pensei muito nos CrossFit Games. Sou muito de “um dia de cada vez”, e estar a pensar muito nisso só causa ainda mais pressão. É claro que a programação ao longo do ano é focada primordialmente no Open, porque é sempre esse o objectivo principal.

 

De tudo o que sabemos que é complicado de gerir na fase do Open, o que foi mais difícil?

Sara Pinto: O mais difícil é não poder treinar em condições durante a semana, ou seja, aquelas cinco semanas ficam totalmente viradas do avesso em termos de programação. É esperar pelo WOD do Open, andar até terça-feira a repetir mil e uma vezes o mesmo [ porque para mim dá sempre para melhorar ].
E já agora um “à parte”, podem não concordar com as mil repetições do WOD, mas “carago“… Se é para isto que eu luto anos e anos, vou estar a deixar de repetir um WOD quando sei que posso conseguir melhorar, nem que seja um milésimo de segundo?
É andar quase todos os dias em stress [ então quando chega a segunda-feira à noite… ]. É ensinar o corpo a descansar, mesmo quando não queres, porque só podes mesmo fazer aquilo. Resumidamente, é a altura do ano que mais detesto.

João Ferreira: Tudo… 😂 Em resumo, é um stress, sempre! Muito mais este ano porque valia tudo, estava tudo em jogo. Eu para ir este ano tinha de ganhar, enquanto que o ano passado para ir aos Regionais bastava-me estar no top 20. Como em Portugal somos quase sempre os mesmos lá cima – vamos apenas rondando as posições – um pequeno deslize podia ser fatal e fazer-me perder o lugar no topo. Este ano pedi até aos meus patrões para me focar exclusivamente no Open e ficar sem trabalhar nesse período porque sei que não estaria com cabeça nas aulas – como aconteceu no ano passado – e isso foi uma mais valia. É extremamente stressante pelos objectivos que eu tenho e pelo nível dos atletas em Portugal, mais ainda este ano porque sabia que ia ser uma “carnificina”, portanto se eu sabia que podia melhorar num WOD por uma ou duas repetições, eu ia repeti-lo uma e outra vez.

 

 

 

Portanto apostaram apenas no Open, ou consideraram algum dos novos eventos sancionados pela CrossFit?

João Ferreira: O meu foco foi o Open, exactamente o mesmo do ano passado. Após conversar com o meu treinador, este aconselhou-me a fazer uma prova presencial antes de rumar aos Games e então apostámos logo num dos eventos sancionados. Fiz então a qualificação e apurei-me para o CrossFit Lowlands Throwdown 2019. Quem sabe para o ano não mudo a minha abordagem e não me foque mais nestes eventos sancionados, que são bem mais agradáveis que as cinco semanas de Open.

Sara Pinto: No meu caso foi apenas no Open também. É claro que gostava de participar em alguns eventos sancionados mas com o trabalho torna-se numa situação mais complicada, é preciso uma logística muito grande. Quem sabe se para o ano não participe em algum evento.

 

João – no teu caso sabendo que vens recém-chegado da tua participação no CrossFit Lowlands Throwdown 2019 – qual foi o teu principal objectivo com ele e como foi a experiência.

João Ferreira: Foi um teste e um treino para os CrossFit Games, e nunca me preparei especificamente para ela. Serviu para eu ver como é que eu reagia frente-a-frente com outros atletas de alto nível, e sabia que ia ser uma competição difícil. Por acaso os eventos que surgiram na competição foram bons para eu testar elementos para os quais eu nunca tinha testado a minha capacidade, como os dumbbells e os sandbags pesadões. Foi bom ver que os meus pontos fortes acabam por vingar em comparação com outros grandes atletas, e não apenas por eu próprio ser bom nos mesmos.

 

 

O que muda a partir do dia em que recebem o e-mail de confirmação?

Sara Pinto: Aquele pensamento: “Afinal, isto é, a sério!”. Mas para mim, continua tudo na mesma. Não me senti mais do que os outros só por ter conseguido a proeza de ir aos Games, sou simplesmente eu na mesma e nem gosto muito de ser o centro das atenções. Só quero estar no meu cantinho.

João Ferreira: O e-mail demorou muito tempo a chegar. Eu comecei a treinar para a competição muito antes de o receber portanto efectivamente não mudou assim grande coisa a partir desse momento.

 

A programação de treinos foi reestruturada?

João Ferreira: Até mesmo o treino não mudou muito, inclui apenas algumas coisas “fora da caixa” de forma a que caso aparecessem em competição não ficar em maior desvantagem.

Sara Pinto: Sim foi, porque o Pedro Pereira achou por bem alterar algumas coisas. A programação visa priorizar as minhas fraquezas em comparação com outras atletas e manter/desenvolver as minhas virtudes. Assim, a ideia é chegar lá com um pulmão enorme e com a capacidade de conseguir suportar cargas médias/altas sob fadiga.
Resumidamente, a parte que ele chama de “warm up” tem normalmente em média a duração de uma hora, pura endurance. A rotina do treino alterou principalmente no volume. Na programação não vem explícito se é bidiário ou não, faço os treinos conforme os meus horários de trabalho.

 

 

E a nutrição é um dos principais focos? Também houve alterações nesse aspecto? Quais são os vossos cuidados/rotinas.

Sara Pinto: A nutrição é a chave principal para um atleta. Decidi pedir algum apoio ao nutricionista António Pedro Mendes para conseguir ter uma melhor orientação. Não é que me fugisse muito nesse aspecto, acho que falho mais é nas quantidades da comida. Não tenho paciência nenhuma para andar a pesar a comida! 😂 Claro que com a ajuda da Marmitando – que é um dos meus patrocínios – é muito mais fácil comer as quantidades e os nutrientes necessários.

João Ferreira: Comer muito e bem! [ diz a Marta Mancelos muito convicta! ] Como deves saber o meu nutricionista é o António Pedro Mendes, que me segue há um ano e meio, e a minha alimentação não mudou assim muito desde a fase do Open. A minha problemática é que perco peso muito facilmente e é uma das questões que temos mais em atenção para evitar que isso aconteça. Não tomo uma grande variedade de suplementação, apenas o básico e o que tem comprovação de eficácia científica – maltodextrina, proteína whey, creatina, magnésio, entre outras. Depende sempre das minhas análises – que faço com bastante regularidade – e é com base nisso que o António Pedro faz um ou outro ajuste na suplementação e no plano. Como coisas simples que se encontram facilmente – carne, arroz, peixe, batata, ovos, aveia – não procuro nem incluo alimentos muito “fancy“, nem “suplementações maravilha”, até porque na maior parte das vezes esses produtos rotulados de “mais saudáveis” acabam por ficar bastante mais caros e não trazem assim tanta mais valia comparando-os com as suas versões tradicionais.  Eu encho-me de arroz e não preciso de muito mais, não consumo quantidades excessivas de proteína. Preciso é de hidratos de carbono e sinto claramente no treino quando os mesmos estão em baixo, e rapidamente falo com o meu nutricionista para ajustarmos isto quando acontece.

 

Ok, vamos a isto… Tem sido um tema altamente polémico nos últimos tempos e posso dizer-vos que foi das perguntas que mais me pediram para vos fazer. Ora sabendo nós das notícias que têm saído de atletas conhecidos nos últimos tempos, para um nível de performance tão elevado, qual a vossa opinião sobre a utilização de esteróides anabolizantes?

Sara Pinto: Sinceramente cada um faz o que quer com o seu corpo. Agora que acho tremendamente injusto o esforço que temos durante horas e horas de treino para conseguir evoluir 1% e alguém com “ajudas extra” consegue em dias fazer o que eu consegui em anos. Acredito profundamente que alguns desses atletas que foram apanhados nem o sabiam, e nem eu estou livre disso. Ora vamos lá ver, os suplementos que tomo e o que vem nos rótulos nem sempre correspondem à verdade, será que aquilo é mesmo testado? Será que não tem lá outros aditivos que estou a consumir e desconheço?

João Ferreira: Acho mal, obviamente que não concordo! Os malefícios que estes trazem está na consciência de cada um. Para além disso, é proibido. Se basicamente isso vai contra as regras, isso não pode nem deve ser correcto. Felizmente que ultimamente andam mais atentos a isso e têm banido os atletas que foram testados positivamente. Se calhar também pensam que eu uso isso, mas eu nunca o fiz nem nunca tive interesse em fazê-lo. Honestamente, eu acho que é possível passar muitos atletas que possivelmente usam esse tipo de aditivos – particularmente no nosso desporto – porque pensam que basta fazerem a toma dos mesmos e dedicar mais tempo a isso do que propriamente ao treino. Pode levar mais tempo, mas claramente também se nota quem chega lá muito rápido e depois desaparece. Só demonstra que as pessoas que o fazem não gostam verdadeiramente de treinar e que preferem optar por “vias mais fáceis”.

 

 

Agora de olhos postos em Madison, estamos a falar de que valor estimados no que diz respeito à viagem, estadia, inscrições, etc.? Vai ser um obstáculo?

João Ferreira: Sim claro, na verdade estamos em Portugal e eu não jogo futebol, nem sou filho de alguém famoso… Estamos a falar de um voo de 1500€ para mim e para a Marta, uma estadia que fica uns 1800€, mais 215€ do bilhete para entrar e assistir aos CrossFit Games, mais 200€ da inscrição na competição, mais o valor da emissão dos vistos, mais uns 500€ na nossa estadia adicional antes da competição para me habituar ao ambiente, mais dinheiro para comer decentemente e com qualidade, mais os transportes, tudo isso. Tentámos que fosse tudo o mais económico possível mas que me oferecesse o melhor conforto para essa semana tão importante. Falando por alto, as contas totais rondam os 5000€, no mínimo. Acredita que se não fosse a ajuda que toda a comunidade e patrocínios me têm dado, seria muito complicado irmos.

Sara Pinto: Ainda é algum dinheiro, não fica nada barata esta brincadeira… Felizmente ainda bem que pude contar com a ajuda da SemperFit que me pagou grande parte das despesas que vou ter. Mas posso fazer as contas aos 2000€, mais coisa, menos coisa.

 

 

E lá chegados, quais são os vossos objectivos?

Sara Pinto: Primeiro, não ficarmos retidos no aeroporto! 😂 Agora a sério, aproveitar aquilo ao máximo. Não vou lá ganhar – claro que vou dar o meu melhor – mas só o facto de poder estar ao lado daqueles atletas que uma pessoa sonha um dia chegar a ser como eles já é uma enorme recompensa por todo o suor e esforço. Há uns anos atrás nunca imaginava chegar a este ponto, ir aos CrossFit Games era como um sonho, para mim é a comparação de ir aos Jogos Olímpicos, estar no meio dos melhor do Mundo. O céu não é o limite, eu quero ainda muito mais.

João Ferreira: Dormir! 😂 Agora a sério… Agora que sabemos que vão haver cortes, o objectivo será sempre competir o mais possível e encarar cada prova como se fosse a última, que pode efectivamente ser. Será sempre ir o mais longe possível na competição.

 

A última pergunta, não é uma pergunta! 😊 Dou-vos a palavra para que cada um de vós deixe uma mensagem à comunidade portuguesa de CrossFit que vos segue e espera o melhor de vocês.

João Ferreira: Não abusem nos fritos, sigam os estudos e se possível façam ginástica! 😂 Vá agora a sério novamente, obrigado a todos. Não só pelos contributos monetários, mas por todo o carinho e mensagens que têm enviado durante toda a época. Claramente sentiu-se o apoio para alcançar este objectivo, para além disso nos últimos tempos têm-me possibilitado treinar em diversas box’s no país sempre que precisei de usar alguns equipamentos específicos, tive sempre portas abertas.  Tive também oportunidade de praticar diferentes modalidades que podem aparecer nos Games, e só tenho a agradecer o contacto com os profissionais das diferentes áreas que fizeram o máximo para me auxiliar. Obrigado também a toda a família do CrossFit OPO e do CrossFit Coimbra que são box’s muito especiais para mim e com as quais tenho um maior contacto, e que sempre me ajudaram e me disponibilizaram flexibilidade de horários. À Marta, que anda sempre atrás de mim e que sem a qual não seria tão fácil “diluir” o stress desta e das outras épocas. Aos meus patrocinadores – como a BOXPT Equipment que está comigo desde o início – que me ajudam todo o ano e que têm sido o apoio na minha carreira. Se não fossem essas marcas que me apoiam eu não teria as condições que tenho agora. Se não fosse essa ajuda, algo não seria possível. Se estou onde estou, e se quero chegar mais algo, muito o devo a isso. Obrigado ao meu treinador, que provavelmente não vai perceber isto a não ser que fale sueco… 😂 E à minha família, que está lá sempre.

Sara Pinto: Antes de mais, um muito obrigado. Às vezes penso que acreditam mais nas minhas capacidades do que eu própria. Aos meus coach’s que me desafiam todos os dias, a dizerem “hoje não tens hipóteses neste WOD!”, mas depois perdem, coitadinhos… 😂 À minha família, pais e namorado, eu sei que dispenso muitos horas sempre a treinar e que por vezes o tempo com vocês é curto, mas se é isto que me deixa feliz… Aos meus patrocinadores, que mais do que marcas são pessoas que eu venero e que me admiram, não só com atleta mas também como pessoa. Estão sempre disponíveis na procura do melhor para mim.

 

Estamos convosco amigos, e obrigado por esta oportunidade e partilha.

Boa viagem, hora de rumar até Madison!

 

Para saberem mais sobre o percurso dos nossos campeões nacionais, sigam o João Ferreira através do seu Instagram e da sua página no Facebook, e a Sara Pinto também através do seu Instagram e da sua página no Facebook.

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