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Esteróides Anabolizantes – Entre Escolhas e Consequências

O artigo que muitos queriam que eu escrevesse, e que outros preferiam não ver publicado.

Porquê? Porque ainda é um tema controverso e tabu. Mas o pior dos perigos na vida é – a meu ver – o desconhecimento.

Não faço, nem quero fazer, juízos de valor. Não nos cabe a nós fazê-lo, cada um toma as suas decisões e assume as suas consequências.

 

Então, o que são esteróides anabolizantes?

Segundo o INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P.:

Os esteróides anabolizantes são compostos sintéticos, com pouca atividade androgénica e usados pela sua atividade anabolizante. […] Aumentam o anabolismo e diminuem o catabolismo proteico. […] São usados como drogas ilícitas e «dopantes» pelos atletas que pretendem aumentar as suas capacidades em resistência física e massa muscular.

Contudo, estes são maioritariamente prescritos para situações de funcionamento deficiente das glândulas sexuais, na puberdade retardada nos rapazes, na osteoporose e em alguns carcinomas do seio após a menopausa.

 

Ora, sendo estas substâncias utilizadas pelos atletas como “drogas ilícitas e dopantes”, a Autoridade Antidopagem de Portugal é a organização nacional antidopagem com funções no controlo e na luta contra a dopagem no desporto, nomeadamente enquanto entidade responsável pela adoção de regras com vista a desencadear, implementar ou aplicar qualquer fase do procedimento de controlo de dopagem. Aqui estão publicadas todas as substâncias e métodos proibidos em Portugal, dentro e fora de competição.

Apesar de algumas destas substâncias se encontrarem disponíveis em farmácias, a venda das mesmas está sujeita a receita médica. Contudo a maioria destes “complementos desportivos” não é directamente obtida através das farmácias nacionais, mas sim por amigos e conhecidos no ginásio, que por sua vez as obtém em mercados negros.

 

Vejamos este artigo da VISÃO publicado neste mês:

Portugal tornou-se exportador de anabolizantes. Há laboratórios clandestinos montados em vãos de escada e atletas amadores a tomarem doses cem vezes superiores à permitida. […] os inspectores descobriram 750 mil comprimidos e 50 mil ampolas prontos a entrar no mercado, além de máquinas de produção, testosterona em estado puro, óleos, frascos e medicamentos contrafeitos adquiridos em mercado paralelo e que, no total, valeriam 2 milhões de euros. […] Portugal deixara de ser um consumidor tímido para passar a ser um dos principais exportadores europeus de esteróides.

 

Mas afinal de contas, quais são os riscos?

 

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Doping in Sports – Handbook of Experimental Pharmacology (Springer, 2010)

 

Fazendo um resumo…

  • Queda do cabelo;
  • Acne;
  • Lesões ao nível do sistema reprodutor, como a disfunção eréctil e infertilidade;
  • Diminuição do crescimento corporal em jovens em fase de crescimento;
  • Roturas nos tendões;
  • Hipertensão arterial;
  • Hipertrofia do miocárdio, o músculo cardíaco;
  • Aumento do mau colesterol (LDL);
  • Aparecimento de tumores malignos no fígado, próstata, entre outros;
  • Hepatites B e C e SIDA, por contaminação a partir da partilha de agulhas utilizadas;
  • Aumento da agressividade e irritabilidade;
  • Dependência psíquica.

 

E acontecem, sim. Não pensem que surgem apenas com tomas elevadas e continuadas das substâncias em questão, um efeito adverso ocorre “com um substância farmacológica correctamente prescrita, correctamente administrada e utilizada na frequência prescrita ou em quantidades mais pequenas”. Isto é, basta apenas uma única administração para existir o risco de ocorrer qualquer uma destas complicações.

 

 

Dependência Psicológica

Dependência propriamente dita às substâncias não existe. Existe sim uma dependência psicológica às mesmas, onde o ideal de “corpo perfeito” é cada vez  mais procurado. Segundo um artigo deste ano da Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde:

O culto à beleza, tão evidenciado na nossa sociedade, tem feito muitas pessoas submeterem-se a condições extremas para alcançar as suas metas, mesmo que para isso se coloque em risco a própria saúde.

 

Grande parte desta dependência surge com o fim de um ciclo de administrações, uma vez que as alterações ao nível muscular e de performance não são permanentes, mas sim temporárias. Essa depressão e falta de auto-estima pelo corpo levam o indivíduo a voltar a consumir as substâncias em questão, como se de um consumo de drogas se tratasse.

 

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Normalmente é tudo muito silenciado, nunca se sabe quem tomou o quê, quando e porque o fez. Mas todos sabem que alguém fez. E porque na realidade, este uso acontece.

Ainda recentemente, o atleta australiano Ricky Garard foi desqualificado nos Reebok CrossFit Games 2017 por apresentar testes positivos a duas substâncias proibidas, RAD140 (Testolone) e GW501516 (Cardarine, Endurobol). O jovem de 23 anos não só perdeu o seu 3.º lugar na competição e os 76.000 dólares de prémio, como ficou banido de competir até 2021.

Apesar de ter sido a primeira vez na história dos Reebok CrossFit Games que um atleta individual de elite tenha acusado o uso de esteróides, já nos Regionais haviam sido detectados atletas com testes positivos que também foram posteriormente desqualificados e suspensos. Todos os atletas dos Reebok CrossFit Games que chegam ao pódio são sujeitos a testes para detectar a presença destas substâncias, sendo também realizados testes aleatórios durante toda a temporada de competição.

 

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Em Portugal obviamente que o controlo em competições nacionais é pouco ou mesmo inexistente, porque o CrossFit não tem a mesma expressão que outros desportos, nem o mesmo impacto que tem lá fora.

Ainda assim, há sempre questões e dúvidas que ficam por responder completamente.

 

É curioso como é que chegamos ao ponto de pensar e de ser discutido em praça pública que todos os atletas que competem ou desejam competir num futuro mais ou menos próximo têm de tomar algo para potenciar os seus resultados. Como é que temos actualmente uma mentalidade que permite “tolerar” que um indivíduo para chegar a certo nível de performance – que não é real! – tem que tomar substâncias deste género?

Haverá necessidade de nos “enganar-mos” a nós próprios, e aos outros, com vias rápidas que não demonstram de todo o nosso trabalho, dedicação e esforço diário durante os treinos?

Para quê competir ou treinar por e com algo que não é nosso e que não é a realidade?

 

Em suma, e fazendo referência à formação com o Sérgio Veloso sobre “Riscos, Mitos e Factos dos Esteróides Anabolizantes” que deu origem à temática deste artigo, deixo-vos o Goldman’s Dilemma:

“Se tivesse uma droga mágica tão fantástica que se a tomasse ganharia todas as competições desportivas dos próximos 5 anos, mas que o mataria 5 anos após tomar, usaria a droga mesmo assim?”

 

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Cada um sabe de si, cada um faz a sua escolha.

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Sem Comentários
  • João Paulo Teles
    29/11/2017 at 19:01

    Excelente artigo Jorge, muito elucidativo, porque de facto é real que existe um comercio clandestino me boxes, ginásios, eventualmente, em alguns clubes. O que está a falhar é a entidade controladora, a ADOP não fazer controles de rotina ou aleatórios nos referidos espaços.

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