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A Voz da Experiência – Ricardo Pereira

Ricardo Pereira, 36 anos, oficial da PSP, atleta de CrossFit, coach e co-fundador da CrossFit OPO, nascido, criado e residente no Porto, um dos atletas com mais experiência em Portugal na modalidade. E desta vez trago-vos o Ricardo por isso mesmo, é uma das vozes com maior experiência.

 

 

Ricardo, já andas nisso há alguns anos. Como entrou o CrossFit na tua vida?

A primeira vez que ouvi falar em CrossFit foi no final do verão de 2010. Na altura treinava num grande ginásio convencional no Porto, e estava bastante saturado dos métodos tradicionais de treino, que não me faziam evoluir mais nem aprender nada de novo. O CrossFit surgiu como uma verdadeira lufada de ar fresco. Lembro-me que o primeiro WOD que fiz foi o Dirty Dozen (adaptado, claro!) e, apesar de eu na altura achar que estava em forma, fiquei de rastos no final!

A partir daí o fascínio e a vontade de querer saber mais foi crescendo exponencialmente. Lembro-me a certa altura ter passado um fim de semana inteiro a ver vídeos de CrossFit, dos diferentes exercícios que faziam e incorporavam nos WODs, e a pensar como é que eu poderia fazer tudo aquilo no ginásio onde treinava. Fazíamos o que podíamos com o que tínhamos, desde empilhar steps para fazer Box Jumps até pendurar toalhas na multipower para imitar as puxadas dos Rope Climbs.

Na altura, no entanto, a informação disponível era ainda muito escassa – basicamente só tínhamos o site oficial da CrossFit, que publicava um WOD por dia – , e eu pensava “mas como é que é esta gente consegue ficar em forma a fazer apenas um WOD de 10 a 15 minutos por dia?”

Como queria aprender mais, no início de 2011 rumei com mais dois amigos (um deles o Luís Miguel Ferreira, hoje meu sócio e Head Coach no CrossFit OPO) às Canárias para fazer o CrossFit Level 1 Trainer Course (CF-L1) no CrossFit Canarias. Na altura fomos dos primeiros em Portugal a ter este curso, e essa foi a primeira vez que entrei numa verdadeira box de CrossFit. Escusado será dizer que desde então nunca mais quis outro tipo de treino!

No final desse ano, e como as condições para treinar num ginásio convencional não são as indicadas (nesta altura ainda não havia nenhum local para treinar CrossFit no Porto), sacrifiquei a garagem de minha casa para poder ter uma pequena box totalmente equipada onde treinar. Foi muito possivelmente uma das primeiras Garage Box em Portugal.

 

Há algum tempo partilhaste na tua página um vídeo teu de 2012 a fazer um Clean & Jerk com 70 Kg. Quem é o Ricardo de agora comparando com o Ricardo de 2012?

Clean n' Jerk 70kg (155lbs)

CrossFit – Clean n' Jerk 70kg (155lbs)

Posted by Ricardo Pereira on Monday, January 30, 2012

 

Esse Ricardo de 2012 era basicamente uma criança a descobrir o mundo, no que ao CrossFit diz respeito. Sabia muito pouco e era ainda muito inexperiente. Treinava sozinho a maior parte das vezes, e filmava tudo o que fazia para poder comparar com os vídeos que via. Não me passava sequer pela cabeça competir. Queria apenas melhorar, aprender e conseguir fazer todos os exercícios que via e que ia descobrindo. Como muitos dos primeiros praticantes em Portugal, aprendia através da tentativa/erro e tinha muito poucas referências.

O Ricardo de hoje é já um coach e atleta experiente, que já passou por dezenas de competições, conheceu dezenas de boxes, deu várias centenas de horas de aulas e passou possivelmente milhares de horas a ler e a estudar sobre CrossFit. E continua a aprender coisas novas todos os dias.

 

Tal como já o referiste, és dos atletas mais “antigos” (digamos assim) na modalidade em Portugal. Como viste o CrossFit nacional evoluir ao longo destes anos?

A evolução tem sido imensurável. É impossível descrever por palavras. Não é só a questão das boxes afiliadas, é tudo o que está associado a esta modalidade. Tudo aquilo que hoje em dia conhecemos e damos como garantido no panorama do CrossFit, simplesmente não existia quando eu comecei a treinar em 2011. Boxes afiliadas, programações, material, equipamento, sapatilhas, competições, workshops, formações… Nada disto existia.

Havia simplesmente o CF-L1 (sempre longe de Portugal) e algumas formações que na altura eram promovidas pelo Diogo Henriques para os primeiros interessados na modalidade. Havia também o The Cross em Ferreira do Zêzere e um blog online do Sérgio Rodrigues que se chamava Core-Fit (os mais antigos irão lembrar-se disto de certeza). Estes dois nomes que referi foram, segundo creio, os primeiros em Portugal a terem o CF-L1.

Hoje em dia o CrossFit assume um papel muito relevante no panorama do fitness em Portugal, e estou totalmente convencido que continuará a crescer. Temos mais de 100 boxes afiliadas a nível nacional, mais várias dezenas não afiliadas, e temos as principais cadeias de ginásios a seguir a metodologia, acrescentando ao seu repertório aulas e espaços que em muito se assemelham ao que fazemos no CrossFit.

 

 

E a vontade de competir surgiu naturalmente?

Foi muito natural e decorrente da normal evolução da modalidade em Portugal. A primeira vez que competi foi no Open de 2012. Este foi o segundo ano em que existiu o Open, e o primeiro em que se inscreveram portugueses. Éramos apenas seis a competir – se me lembro corretamente, era eu, Renato Oliveira, Diogo Henriques, Filipe Alves, Carlos Oliveira e outro atleta ao qual peço desculpa mas honestamente não me recordo do nome -, e para mim pouco me interessavam os resultados dos estrangeiros. Na altura não tínhamos grandes referências internacionais, apenas os atletas de topo dos CrossFit Games, dos quais estávamos a anos-luz de distância. Por isso o meu objetivo era apenas ser o melhor português em prova. Não consegui, mas a vontade de competir instalou-se.

 

 

Ainda em 2012 surge aquela que que creio ter sido a primeira competição em Portugal (Vimafit em Guimarães, na qual não participei, que basicamente foram os primeiros Promofit Games), e em 2013 o Diogo Henriques, que entretanto afiliou a sua Box 1RM – CrossFit Palmela, primeira afiliada em Portugal – lançou o CrossFit Campeonato Nacional, que foi talvez a primeira prova a juntar os então melhores atletas de CrossFit em Portugal. Nesse ano já muitos portugueses se inscreveram no Open, e eu voltei a inscrever-me e fui o português melhor classificado (na altura ainda não se usava o “Fittest In”). Isso deixou-me ainda mais motivado, e criou boas expectativas para o tal Campeonato Nacional, que era uma verdadeira maratona – 21 WODs de qualificação, e uma final de um dia no CrossFit Palmela. Na altura fiquei em primeiro lugar na qualificação, e na final em Palmela fiquei em terceiro lugar, atrás do Bruno Militão e do Hugo Cavaco. Foi nesse dia que eu tive a certeza que nunca mais na minha vida faria outro desporto que não este, e que iria competir enquanto tivesse condições para isso.

 

 

Nessa altura as referências internacionais eram poucas. O Rich Froning era, claro, a principal referência, depois de vencer os CrossFit Games de 2012. Mas não havia a quantidade de vídeos e divulgação que existe hoje em dia, por isso pouco conhecíamos os atletas estrangeiros (mesmo os Europeus). Em Portugal, creio que as referências nacionais da modalidade se começaram a criar depois da final do Campeonato Nacional. Nessa final fiz amigos que se mantêm até ao dia de hoje.

 

 

O que mais falta aos nossos atletas, quer aos que ambicionam um dia dedicar-se seriamente à modalidade quer aos que já dão cartas a nível nacional?

Antes de tudo o resto, falta experiência. Estamos ainda muitos anos atrás comparativamente aos melhores atletas internacionais. Salvo alguns casos mais pontuais, eles levam muito tempo de vantagem relativamente aos portugueses. Só em meados de 2014/2015 é que o CrossFit começou a chegar a todos os cantos do país e a atrair mais atletas, e só mais tarde alguns se começaram a dedicar mais a sério à modalidade. Temos ainda muito caminho pela frente. Mas temos tempo.

 

 

Ricardo, Polícia de Segurança Pública, owner/coach da CrossFit OPO, marido da Rita, pai do “pequeno” grande Lourenço, atleta de CrossFit, cuidar desse cabelo. Faltou-me alguma coisa? Como consegues articular tudo na tua vida?

A parte do cabelo é fácil, foi a sorte de ter bons genes e comprar um bom secador!

Fundamentalmente, consigo conciliar tudo porque tenho à minha volta uma fantástica rede de apoio. Toda a minha família próxima apoia esta minha paixão, e todos me ajudam, cada qual à sua maneira, a ter tempo para conseguir, ainda que com muito sacrifício, dedicar duas horas do meu dia quase exclusivamente ao treino.

Começou desde logo com a minha mãe, que me deixou sacrificar a garagem de casa dela para poder lá montar a minha Garage Box em 2011, e ainda me ajudou a montá-la. O meu pai também me ajudou financeiramente nessa altura, o que me permitiu ter o material que precisava. O Luís Miguel Ferreira, foi o primeiro a fazer a minha programação para competição, para o Open de 2013. A minha esposa Rita, desde que nos conhecemos, que incentiva esta minha paixão, e adora ver-me competir. Entretanto fui eu que a trouxe para este mundo, e partilhares a tua vida com quem partilha a tua paixão, não tem preço. Depois de nascer o Lourenço, ela assume muitas vezes o papel de pai e mãe, enquanto eu estou a trabalhar ou a treinar, mas faz de tudo para que estejamos o máximo de tempo possível juntos, chegando a levar o nosso filho para a box quase todos os dias à hora a que eu treino só para podermos estar mais algumas horas juntos, ainda que eu esteja a treinar. O que ela faz por mim, por nós, é verdadeiramente excecional.

 

Curiosidade: Sabiam que o Ricardo e a Rita se conheceram por causa dos Promofit Games? 😉

 

Entretanto, muitas vezes também a minha irmã, a minha mãe e os pais da Rita ficam a tomar conta do Lourenço para que ambos possamos ter algum tempo para nós, quer seja para treinar, quer seja para podermos ter momentos apenas como casal. Já o éramos antes dele nascer, e continuaremos a ser um dia que ele saia de casa para viver a sua vida.

Resumindo, nas geniais palavras de Eliud Kipchoge, 100% de mim não é nada comparado com 1% de toda a equipa.

Claro que, sem falsas modéstias, tenho que dizer que nada se consegue sem muito esforço, trabalho e dedicação. A minha equipa pode montar a estrada, mas sou eu que tenho de a percorrer todos os dias. E aí não há segredos: esforço, trabalho, vontade e dedicação. Definir aquilo que para mim é prioritário, e saber relegar tudo o resto para segundo plano.

 

E quando voltamos a ver o Ricardo na cozinha a fazer papas de aveia ou panquecas no YouTube? Quão importante foi a nutrição durante todo o teu processo de evolução enquanto atleta?

 

 

Essa fase foi gira, basicamente o que eu queria era apenas mostrar às pessoas aquilo que costumava comer todos os dias, porque era algo que muitas pessoas me perguntavam. Então pensei que seria mais fácil fazer uns vídeos que mostrassem aquilo que eu comia e as receitas que seguia. E na verdade esses são os meus vídeos com maior número de visualizações. Quem sabe se no futuro não dedicarei o meu tempo a outros projetos, que me façam voltar a essas filmagens!

Pessoalmente, a área da nutrição fascina-me. Passo muitas horas a ler e a aprender sobre nutrição. Não só porque gosto genuinamente do tema, mas também porque sei o impacto que a alimentação tem na nossa vida, na nossa saúde, na nossa longevidade e qualidade de vida, e no nosso rendimento desportivo. Tenho a perfeita noção que a grande maioria das pessoas não dá a devida importância a este tema. Mas a nutrição, a par com o descanso, está na base de tudo o que fazemos. O treino vem só depois da base estar bem consolidada. Muitas das minhas publicações giram à volta de um conselho fundamental: saibam o que comer. Marquem hoje mesmo uma consulta com um nutricionista e percebam aquilo que é o adequado para vocês, principalmente a nível da quantidade e qualidade dos alimentos que consomem. Enquanto atleta, as alturas em que senti maior evolução, em muito se deveram a ter alterado os meus hábitos alimentares. Não há palavras que enfatizem convenientemente a importância de uma boa nutrição.

 

 

E fim de aproveitarmos a época, que estás a achar do Open deste ano e das mudanças que ocorreram? Quem são as tuas apostas para representar as nossas cores?

Confesso que primeiro estranhei, depois entranhei. Percebo que o objetivo do Greg Glassman seja regressar à origem daquilo que ele queria para a CrossFit Inc., dando mais enfoque à questão da saúde e menos à questão da competição. É inegável que a competição estava a tomar uma parte muito considerável da empresa e, presumo, também do seu orçamento. Percebi perfeitamente que ele quisesse deixar de fazer os Regionais quando o ouvi explicar, numa entrevista, que gastou um milhão de dólares só para fazer os Regionais no Brasil, apenas para apurar um homem e uma mulher para os CrossFit Games. Eram fundos que ele achava que estavam a ser mal utilizados, e quem sou eu para discordar.

A verdade é que para 99% dos atletas que participam no Open, pouco (ou quase nada) mudou. As verdadeiras mudanças foram para o 1% de atletas que se apuravam para os Regionais e para os CrossFit Games. A única mudança que tem verdadeiro impacto em todos os que participam foi a alteração dos anúncios dos WODs, com a qual confesso que discordo. Esses anúncios, feitos pelo Dave Castro e muito bem produzidos pela equipa de média da CrossFit Inc., eram um dos pontos altos do Open. Chegamos a juntar muitas vezes no CrossFit OPO dezenas de atletas para verem o anúncio do último WOD do Open (mesmo à meia noite), e fazerem-no logo de seguida. Era um momento sempre muito aguardado. Os anúncios este ano deixaram muito a desejar, na minha modesta opinião. Não nos esqueçamos que todos pagamos para nos inscrevermos no Open, e acho que essa experiência dos anúncios, que é para todos, devia continuar a ser executada em inteiro pela CrossFit, como fazendo parte do serviço que pagamos.

 

 

Quanto aos atletas que nos irão representar nos CrossFit Games… No momento em que escrevo isto, já só falta saber qual será o 19.5 e quais serão os resultados finais. Por isso, e considerando as classificações atuais, parece-me claro que os vencedores nacionais serão o João Ferreira e a Sara Pinto, salvo algum imprevisto. Devo dizer, no entanto, que se estivesse a responder no início do Open, a minha aposta seria nestes dois nomes também. O João Ferreira é um atleta extraordinariamente dedicado e focado. A prova viva que nada, absolutamente nada, supera o trabalho árduo e honesto. Tenho o privilégio de poder assistir todos os dias à forma dedicada como ele treina, e sabia que estava muito bem preparado e motivado. Quanto à Sara Pinto, é uma atleta com uma capacidade de trabalho enorme, perfeita para o Open. Não ganhou nenhum dos WODs até agora, mas ficou em segundo lugar em todos. Acho que isso diz tudo quanto à sua consistência, fundamental para um(a) atleta de CrossFit.

Mais importante do que nomes específicos, será um orgulho enorme ver atletas portugueses a competir no escalão de elite dos CrossFit Games, algo que muitos consideravam impensável há alguns anos atrás.

 

E o futuro Ricardo, onde queres e vais chegar?

No futuro (muito) próximo, o meu objetivo é acabar este Open no top 100 mundial de atletas Master 35/39, o que para mim seria um excelente resultado e um motivo de grande orgulho (além de me dar acesso ao Age Group Online Qualifier – passam os 200 melhores a nível mundial). Logo de seguida, terei a final dos Promofit Games em Matosinhos, onde estarei a lutar por mais um lugar no pódio.

 

 

A seguir aos Promofit Games, muita coisa irá mudar na minha vida. Irei abraçar novos projetos, dos quais ainda não posso revelar nada. A seu tempo falarei sobre isso, quiçá numa nova entrevista contigo…

 

Para saberem mais sobre o percurso da Ricardo, sigam-no através do seu Instagram e da sua página no Facebook.

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